quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Paixão pelo rádio

Mesmo com mais de 80 anos, o rádio continua encantador. Para quem vivenciou o início do rádio, nos anos 30, não sabe até que ponto o rádio fez parte da vida de cada um ou se fez parte da história do rádio. “Tenho paixão por rádio. Primeiro vem Deus, em segundo lugar, os meus filhos, e em terceiro o rádio.” Edília Cardoso, de 81 anos, adorava ouvir a Rádio Nacional, criada em 1936. O hábito foi adquirido quando saiu do pequeno município de São João da Barra, interior do Rio de Janeiro, e veio para Copacabana.
Programas de humor eram os seus favoritos. “Não via a cara de ninguém , mas só de ouvir a gargalhada do rádio, a gente ria junto”, diverte-se. Mas o que mais lhe atraía no rádio eram as músicas. Escutava muito Aracy de Almeida, uma das intérpretes mais famosas de samba dos anos 30, que fez muito sucesso nas Rádios Philips, Mayrink Veiga e Tupi. A música que mais se lembra desta época era “O teu cabelo não nega”, de Lamartine Babo, sucesso até hoje em bailes de carnaval. Mas o seu preferido era outro ilustre do rádio: “Ary Barroso era um grande compositor. Fez muitas músicas bonitas. Mas eu gostava dele quando estava em um programa de calouros. Tanto no rádio quanto na TV.”
Já Arlete Salles, de 72 anos, lembra uma outra faceta de Ary Barroso, o de locutor esportivo. “Ary Barroso tentava narrar os jogos, mas não escondia que era flamenguista doente”, diz Arlete, que também se recorda da famosa gaita do Ary, que tocava quando saía os gols. “Isso me lembra da confusão que era lá em casa quando tinha Fla x Flu. Minha avó era Fluminense e meu avô, Flamengo. Era uma discussão só em torno do rádio”.
E as brigas não eram apenas por causa de futebol. Arlete conta como era intensa a guerra entre as cantoras do rádio. “Minhas irmãs já ficaram sem se falar por causa dessa rivalidade. Uma defendia a Marlene e outra a Emilinha Borba. Nenhuma das duas conheceu ou sequer viram as artistas.”
Dos anos 30, Arlete ouvia muito quando era criança os cantores Jararaca e Ratinho que, em 1939, ingressam na Rádio Mayrink Veiga e depois migram para a Rádio Nacional, e a dupla sertaneja Alvarenga e Ranchinho, da Rádio Tupi do Rio de Janeiro. Lembra-se também de um programa que marcou época. “Meu pai acordava às 6 horas da manhã para ir trabalhar e ligava o rádio para escutar o programa Hora da Ginástica. Não fazia exercício algum, mas fazia questão de ouvir as instruções. Mas tinha gente que comprava um mapa e fazia ginástica dentro de casa. Tinha até um bastão, não é?” Tinha. O show comandado por Oswaldo Diniz Magalhães ficou no ar por 52 anos e ensinava como fazer exercícios físicos em casa.
O rádio sempre recebeu destaque na vida de Arlete. O aparelho ficava em cima de uma cristaleira, na sala, e foi comparado a prazo, como de costume na época. “Passava um gringo que batia de porta em porta e vendia o rádio a prestação. Quando ele chegava no bairro, os vizinhos gritavam: O Prestação chegou! E marcava os cartões de cada um que pagava a mensalidade do aparelho.”
Artistas da época, como as atrizes Henriqueta Brieba, da Rádio Nacional, e Ismênia dos Santos, freqüentavam a sua casa por causa da avó Delfina, que adivinhava o futuro para os artistas. “Elas (as artistas) adoravam saber o que poderia acontecer no futuro”, afirma. A avó, com quem foi criada, também era uma grande fã do rádio. Delfina Mota mandava cartas e cartas para as rádios. Com isso, a emissora mandava pelo correio um álbum com as fotografias dos artistas de radionovela. Essa era a forma de ver os atores. “Não tinha a TV, nós imaginávamos as pessoas. Me lembro que adorava a Aracy de Almeida, mas nunca a tinha visto. Só sei que ela tinha uma voz jovem, frágil. Quando a vi na televisão como jurada de calouro, foi uma surpresa. Ela tinha uma expressão dura e não suave como imaginava.”
É desse suspense de que Edília Cardoso mais sente falta: “Sinto saudades da vontade de ver os artistas, de imaginar o rosto dos atores. Era uma ansiedade boa. Hoje não tem mais graça”. Edília, que costumava mandar cartas para a Rádio Tupi, que ouvia na cozinha da casa onde trabalhava, hoje telefona sempre para a pequena rádio do sobrinho, em São João da Barra. Pede música, dá palpite e reclama de algum serviço mal feito na cidade. “Seu sobrinho é locutor, é?”, pergunto. “Não, é radialista!”, responde com a certeza de quem sabe que faz parte da história do rádio.
Lívia França Salles

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