sexta-feira, 23 de novembro de 2007

O capelinha do bairro da Saúde

Entrevista Feliz Maria Mauro Caruso



Feliz Maria Mauro Caruso nasceu no Rio de Janeiro, em 1921 e fez a formação de obstetriz ou, na nomenclatura moderna, enfermeira obstetra. Cresceu na casa de seu avô, o patriarca italiano Antônio Mauro. No sobrado na Rua América, na Saúde, viviam ao todo 13 pessoas. Na época, dos seis filhos de Antônio, cinco ainda moravam com ele e dois já eram casados. Nicola e Ernesto Mauro se casaram respectivamente Isabela Copello e Ursulina Astute, O primeiro casal teve apenas uma filha, Mifloresta, nome dado em homenagem a uma atriz de teatro. O segundo casal foi mais produtivo, teve quatro filhos: Antônio, Ema, Lídia e a caçula Feliz Maria.
Nessa época, a Rua América era de terra e o bonde passava em frente ao sobrado, puxado por burros. A diversão da meninada era brincar de roda, carniça, pega ladrão, chicote queimado, tudo pelas ruas da vizinhança.
Não era preciso muito para que o italiano Antônio Mauro juntasse toda a família. Datas comemorativas e almoços de domingos eram garantia de reunião familiar e, conseqüentemente, fartura na cozinha.
Certo dia, a pequena Feliz Maria havia voltado de seu colégio, Benjamim Constant, localizado no Centro do Rio, onde hoje ergue-se a estátua de Zumbi dos Palmares, e brincava na rua à espera de seu pai, Ernesto. Ele trabalhava numa loja de chapéus na Rua Sete de Setembro, também no Centro. Ele raramente se atrasava, mas, nesse dia demorou um pouco mais que o normal. Ao chegar em casa trazia debaixo do braço um grande embrulho. Os que estavam por perto foram conduzidos pela curiosidade para assistir à abertura do estranho pacote que Ernesto manejava com muito cuidado. Desfeito o embrulho revelou-se um capelinha, nome dado ao aparelho de rádio da época devido ao seu formato. Surpresa e comoção geral, os mais velhos achavam aquilo uma extravagância, por sua vez, os mais jovens traziam no brilho dos olhos a aprovação do gesto de Ernesto.
Não demorou muito para que o aparelho de rádio fosse instalado e começasse a trazer alegria e divertimento para casa através dos sons que emitia. O capelinha foi estrategicamente posicionado na sala de estar em cima de uma geladeira que gelava a gelo. Estrategicamente, devido à proximidade do destino final dos dois fios que saiam do aparelho: um ia para uma fonte de eletricidade próxima e outro para as grades da janela, que a partir desse momento passariam a funcionar também como antena. Havia o inconveniente de ter que tirar o aparelho de cima da geladeira toda vez que era preciso renovar o gelo, mas nada que diminuísse a alegria de se ter um capelinha em casa.
Logo o rádio foi encontrando seu lugar na rotina da família Mauro e a regra básica de convivência com o aparelho, estabelecida por Ernesto veio à tona: só ele e sua mulher Ursulina podiam mexer no rádio. Nem as crianças, nem os outros adultos da casa, só o casal tinha acesso livre aos botões do capelinha. Assim sendo, Lídia e Feliz Maria não tinham pudores em acordar sua mãe, Ursulina, logo de manhã cedo, uma vez que só ela podia sintonizar a Hora da ginástica, na Rádio Nacional. O tapete da sala de estar era praticamente uma academia. O programa rendeu boas risadas às meninas quando elas tentavam imaginar as posições propostas por Oswaldo Diniz Magalhães e boas quedas quando elas tentavam realizá-las. Ainda de manhã, Ernesto não abria mão de ouvir as notícias na Rádio Jornal do Brasil, sorte das meninas que os horários dos programas não eram concorrentes. As duas irmãs tinham opiniões diferentes em relação à emissora favorita. Enquanto Lídia gostava da Rádio Tupi, Feliz Maria se interessava pela programação da Rádio Mayrink Veiga, mas depois a Rádio Nacional se tornou unânime na preferência das duas meninas.
Durante toda a tarde o rádio deveria permanecer desligado para economizar luz. A tentação de ligar o aparelho era grande, mas o medo da punição era ainda maior. A casa parecia estranhamente vazia nesses momentos. Quando a noite vinha e Ernesto chegava do trabalho, a casa se enchia novamente, não só pela presença do ilustre do comprador do capelinha, mas pelos sons que dele saíam. Era nesse momento que os vizinhos se aproximavam do sobrado da família Mauro. Eternamente intrigados com o aparelho, para eles não importava o programa que estava no ar, queriam apenas ouvir o rádio funcionando. Eram mágicas aquelas vozes sem boca e misteriosas vindas do além para os lares. Para não interromper a magia do momento: silêncio absoluto. Comentários só eram permitidos no intervalo e ao final dos programas. O rádio conquistou um feito: manter em silêncio por mais de cinco minutos uma família italiana reunida. Sonhos de conhecer os speakers ou cantores e até mesmo de ir a um programa de auditório não passavam, e nem podiam passar, na cabeça de Feliz Maria, uma menina criada com o rigor de uma família italiana tradicional.
Hoje, da poltrona de couro de seu apartamento no quarto andar de um edifício na Barra da Tijuca, Feliz Maria, 86 anos, observa a Avenida das Américas que em nada se assemelha à Rua América. Pouco restou daquele tempo, nem mesmo as pessoas estão mais lá para contestar a edição da sua memória. Ainda assim, as parcas lembranças dos anos 30 são capazes de trazer de volta o sorriso de uma menina que conheceu o rádio em sua época de ouro.
Felipe Caruso

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