Nas décadas de 30 e 40, o rádio foi o principal meio de comunicação do Brasil e única forma de entretenimento nos lares brasileiros. Na casa da carioca Norma Reis Valle, uma professora aposentada de 76 anos (25/08/1931), no subúrbio carioca de Cascadura, não era diferente.
Segunda filha mais velha de uma família de sete irmãos, Norma mantém vivas na memória as lembranças do rádio durante sua infância. O aparelho da família, que era mantido na sala, “para todos ouvirem e para que todos que entrassem na casa pudessem ver”, era da marca Philips.
Ao ser perguntada sobre seus programas favoritos, a resposta imediata foi o Picolino, na Rádio Mayrink Veiga. Lançado em 1938, o programa de calouros era apresentado por Barbosa Júnior, durante o dia. Outro que mereceu destaque foi Silvino Neto, com seu humorístico na Rádio Nacional, também em 1938. Dois anos depois, Renato Murce, com o seu Papel Carbono, se tornaria um dos artistas favoritos da ex-professora.
Norma ri ao se lembrar da família reunida na sala de casa para praticar ginástica, sob comando do programa Comece bem o dia, da Rádio Mayrink Veiga. A atração era exibida em dois horários, às 6h e às 7h da manhã, e estimulava o exercício físico. Humilde, a família comprava os mapas para acompanhar as posições, no entanto, tinha de se exercitar com bastões de bambu feitos à mão pelo patriarca, seu Oswaldo.
A aposentada lembra de um episódio, quando sua mãe, dona Jovelina, a levou no auditório da Rádio Nacional para assistir à gravação de um dos programas de calouros. Seu sonho era conhecer os artistas de perto. Para Norma, todos os programas de rádio eram bons e não havia um do qual ela não gostasse. Ela garante que seus pais não a proibiam de ouvir qualquer um deles e, se o faziam, ela diz não ter percebido.
Por último, Norma confessou ser fã dos jingles publicitários veiculados pela rádio. Os favoritos eram os da “Casa Dragão”, lojas de utensílios domésticos muito popular.
Entrevista nº2
Ottília Lemos Chaves, uma carioca de 83 anos (28/09/1924), nasceu em uma família de mais recursos, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Ela e a única irmã acompanharam de perto a Era de Ouro do rádio no Brasil, da qual Ottília se recorda com carinho. No entanto, ao contrário da grande maioria dos brasileiros, ela guarda também certo rancor das transmissões radiofônicas: por seis anos, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Ottília esperou pela notícia do fim do conflito para que, enfim, seu noivo voltasse do Exército e eles pudessem se casar.
O aparelho de rádio dos Chaves era da marca Philips e ficava na sala, “porque integrava a família”. Vascaína inveterada, Ottília cresceu ouvindo ao lado do pai as transmissões esportivas e o programa de calouros de Ary Barroso, do qual é fã. Ela destacou também o locutor César Ladeira como um de seus favoritos e o programa O Sombra como um dos piores. “Ah, era muito ruim. Aquela voz estranha, aquele suspense todo. Dava medo”, garante.
Ottília, que nunca trabalhou e encerrou os estudos após se formar como secundarista, gostava dos jingles publicitários veiculados no rádio. No entanto, só conseguiu se lembrar do slogan da “Casa Silvana” – Silvanize-se, amigo –, sem recordar de qual época era.
Se dependesse da vontade dos amigos, Ottília Chaves podia ter sido um dos nomes do rádio no Brasil. Excelente cantora, ela afirma que seus vizinhos sempre tentaram levá-la para participar de algum programa de calouros, mas ela nunca aceitou a proposta. Tímida, preferiu a vida de ouvinte.
Andressa Reis
quarta-feira, 28 de novembro de 2007
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