quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Chiado danado

História da Rádio e TV no Brasil



Denyr de Alcântara, não existe outro nome igual, como ela própria afirma. Ela nasceu no dia dia 24 de outubro de 1920 no Rio de Janeiro. Portanto, completará 87 anos no final deste mês. Trabalhou como funcionária da Central do Brasil e hoje em dia é aposentada. Pois vive num retiro para idosos na rua Conde de Bonfim no bairro do Rio de Janeiro, na Tijuca.
Na sua adolescência, a principal forma de entretenimento dentro da sua casa era o rádio. Era um caixote grande, que ficava sobre a cristaleira na sala. Ela afirma que não havia rádio pequeno naquela época e reiterava a idéia que o aparelho chiava muito. Se formos pensar como se fosse hoje em dia, seria como se o rádio fosse a televisão da casa. Um eletrodoméstico que trazia a união da família. Ou seja, algo, que apenas pelo sentido da audição, trazia a distração para a todos naquela época dos anos 30, na época do Estado Novo de Getúlio Vargas.
Ela se recorda das rádios Mayrink Veiga, Nacional e Tupi. Ela se recorda muito da rixa entre a Mayrink e a Radio Nacional. Em 1932, segundo ela, fundou-se a Rádio Mayrink Veiga. Alguns anos depois, em 1937, apareceu a rádio Nacional. Um dos programas que ela gostava era o programa do “seu” Ademar Case. Naquele tempo havia muitos programas de auditório, de acordo com dona Denyr.
Apesar das transmissões terem um chiado “danado”, dona Denyr gostava da rádio Mairynk Veiga, aonde haviam os programas de auditório. Se voltarmos ao ponto da audição, o que mais aguçava os sentidos de pessoas como dona Denyr naquela época, a música era o carro chefe das emissoras de rádio. Os intérpretes que ela mais admirava eram Francisco Alves, Orlando Silva e Carlos Galhardo.
E ela nem precisava imaginar como eram as feições desses artistas por que havia a revista do rádio. Aonde mostravam fotos e reportagens dos cantores e cantoras que eram grande ícones do radio brasileiro naquela época.
Além de música e programas como o de Ademar Case, ela também escutava as famosas novelas. Uma que marcou muito dona Denyr foi a novela “Direito de Nascer”, que durou mais de um ano, segundo seu depoimento. Esta novela a deixava muito emocionada e por todo este tempo ela acompanhou piamente.
É muito curioso imaginarmos numa época em que o áudio visual e a efemeridade é primazia no nosso século XXI, como as pessoas se encantavam com o rádio, que era uma caixa grande cheia de chiados. E o rádio foi uma coisa que marcou muito a vida de Dona Denyr, hoje em dia uma senhora viúva de quase 87 que ainda acompanha novelas e tem como a televisão um de seus programas preferidos.
Francisco Vereza

Ginástica pelo rádio

Nas décadas de 30 e 40, o rádio foi o principal meio de comunicação do Brasil e única forma de entretenimento nos lares brasileiros. Na casa da carioca Norma Reis Valle, uma professora aposentada de 76 anos (25/08/1931), no subúrbio carioca de Cascadura, não era diferente.
Segunda filha mais velha de uma família de sete irmãos, Norma mantém vivas na memória as lembranças do rádio durante sua infância. O aparelho da família, que era mantido na sala, “para todos ouvirem e para que todos que entrassem na casa pudessem ver”, era da marca Philips.
Ao ser perguntada sobre seus programas favoritos, a resposta imediata foi o Picolino, na Rádio Mayrink Veiga. Lançado em 1938, o programa de calouros era apresentado por Barbosa Júnior, durante o dia. Outro que mereceu destaque foi Silvino Neto, com seu humorístico na Rádio Nacional, também em 1938. Dois anos depois, Renato Murce, com o seu Papel Carbono, se tornaria um dos artistas favoritos da ex-professora.
Norma ri ao se lembrar da família reunida na sala de casa para praticar ginástica, sob comando do programa Comece bem o dia, da Rádio Mayrink Veiga. A atração era exibida em dois horários, às 6h e às 7h da manhã, e estimulava o exercício físico. Humilde, a família comprava os mapas para acompanhar as posições, no entanto, tinha de se exercitar com bastões de bambu feitos à mão pelo patriarca, seu Oswaldo.
A aposentada lembra de um episódio, quando sua mãe, dona Jovelina, a levou no auditório da Rádio Nacional para assistir à gravação de um dos programas de calouros. Seu sonho era conhecer os artistas de perto. Para Norma, todos os programas de rádio eram bons e não havia um do qual ela não gostasse. Ela garante que seus pais não a proibiam de ouvir qualquer um deles e, se o faziam, ela diz não ter percebido.
Por último, Norma confessou ser fã dos jingles publicitários veiculados pela rádio. Os favoritos eram os da “Casa Dragão”, lojas de utensílios domésticos muito popular.
Entrevista nº2
Ottília Lemos Chaves, uma carioca de 83 anos (28/09/1924), nasceu em uma família de mais recursos, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Ela e a única irmã acompanharam de perto a Era de Ouro do rádio no Brasil, da qual Ottília se recorda com carinho. No entanto, ao contrário da grande maioria dos brasileiros, ela guarda também certo rancor das transmissões radiofônicas: por seis anos, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Ottília esperou pela notícia do fim do conflito para que, enfim, seu noivo voltasse do Exército e eles pudessem se casar.
O aparelho de rádio dos Chaves era da marca Philips e ficava na sala, “porque integrava a família”. Vascaína inveterada, Ottília cresceu ouvindo ao lado do pai as transmissões esportivas e o programa de calouros de Ary Barroso, do qual é fã. Ela destacou também o locutor César Ladeira como um de seus favoritos e o programa O Sombra como um dos piores. “Ah, era muito ruim. Aquela voz estranha, aquele suspense todo. Dava medo”, garante.
Ottília, que nunca trabalhou e encerrou os estudos após se formar como secundarista, gostava dos jingles publicitários veiculados no rádio. No entanto, só conseguiu se lembrar do slogan da “Casa Silvana” – Silvanize-se, amigo –, sem recordar de qual época era.
Se dependesse da vontade dos amigos, Ottília Chaves podia ter sido um dos nomes do rádio no Brasil. Excelente cantora, ela afirma que seus vizinhos sempre tentaram levá-la para participar de algum programa de calouros, mas ela nunca aceitou a proposta. Tímida, preferiu a vida de ouvinte.

Andressa Reis

Paixão pelo rádio

Mesmo com mais de 80 anos, o rádio continua encantador. Para quem vivenciou o início do rádio, nos anos 30, não sabe até que ponto o rádio fez parte da vida de cada um ou se fez parte da história do rádio. “Tenho paixão por rádio. Primeiro vem Deus, em segundo lugar, os meus filhos, e em terceiro o rádio.” Edília Cardoso, de 81 anos, adorava ouvir a Rádio Nacional, criada em 1936. O hábito foi adquirido quando saiu do pequeno município de São João da Barra, interior do Rio de Janeiro, e veio para Copacabana.
Programas de humor eram os seus favoritos. “Não via a cara de ninguém , mas só de ouvir a gargalhada do rádio, a gente ria junto”, diverte-se. Mas o que mais lhe atraía no rádio eram as músicas. Escutava muito Aracy de Almeida, uma das intérpretes mais famosas de samba dos anos 30, que fez muito sucesso nas Rádios Philips, Mayrink Veiga e Tupi. A música que mais se lembra desta época era “O teu cabelo não nega”, de Lamartine Babo, sucesso até hoje em bailes de carnaval. Mas o seu preferido era outro ilustre do rádio: “Ary Barroso era um grande compositor. Fez muitas músicas bonitas. Mas eu gostava dele quando estava em um programa de calouros. Tanto no rádio quanto na TV.”
Já Arlete Salles, de 72 anos, lembra uma outra faceta de Ary Barroso, o de locutor esportivo. “Ary Barroso tentava narrar os jogos, mas não escondia que era flamenguista doente”, diz Arlete, que também se recorda da famosa gaita do Ary, que tocava quando saía os gols. “Isso me lembra da confusão que era lá em casa quando tinha Fla x Flu. Minha avó era Fluminense e meu avô, Flamengo. Era uma discussão só em torno do rádio”.
E as brigas não eram apenas por causa de futebol. Arlete conta como era intensa a guerra entre as cantoras do rádio. “Minhas irmãs já ficaram sem se falar por causa dessa rivalidade. Uma defendia a Marlene e outra a Emilinha Borba. Nenhuma das duas conheceu ou sequer viram as artistas.”
Dos anos 30, Arlete ouvia muito quando era criança os cantores Jararaca e Ratinho que, em 1939, ingressam na Rádio Mayrink Veiga e depois migram para a Rádio Nacional, e a dupla sertaneja Alvarenga e Ranchinho, da Rádio Tupi do Rio de Janeiro. Lembra-se também de um programa que marcou época. “Meu pai acordava às 6 horas da manhã para ir trabalhar e ligava o rádio para escutar o programa Hora da Ginástica. Não fazia exercício algum, mas fazia questão de ouvir as instruções. Mas tinha gente que comprava um mapa e fazia ginástica dentro de casa. Tinha até um bastão, não é?” Tinha. O show comandado por Oswaldo Diniz Magalhães ficou no ar por 52 anos e ensinava como fazer exercícios físicos em casa.
O rádio sempre recebeu destaque na vida de Arlete. O aparelho ficava em cima de uma cristaleira, na sala, e foi comparado a prazo, como de costume na época. “Passava um gringo que batia de porta em porta e vendia o rádio a prestação. Quando ele chegava no bairro, os vizinhos gritavam: O Prestação chegou! E marcava os cartões de cada um que pagava a mensalidade do aparelho.”
Artistas da época, como as atrizes Henriqueta Brieba, da Rádio Nacional, e Ismênia dos Santos, freqüentavam a sua casa por causa da avó Delfina, que adivinhava o futuro para os artistas. “Elas (as artistas) adoravam saber o que poderia acontecer no futuro”, afirma. A avó, com quem foi criada, também era uma grande fã do rádio. Delfina Mota mandava cartas e cartas para as rádios. Com isso, a emissora mandava pelo correio um álbum com as fotografias dos artistas de radionovela. Essa era a forma de ver os atores. “Não tinha a TV, nós imaginávamos as pessoas. Me lembro que adorava a Aracy de Almeida, mas nunca a tinha visto. Só sei que ela tinha uma voz jovem, frágil. Quando a vi na televisão como jurada de calouro, foi uma surpresa. Ela tinha uma expressão dura e não suave como imaginava.”
É desse suspense de que Edília Cardoso mais sente falta: “Sinto saudades da vontade de ver os artistas, de imaginar o rosto dos atores. Era uma ansiedade boa. Hoje não tem mais graça”. Edília, que costumava mandar cartas para a Rádio Tupi, que ouvia na cozinha da casa onde trabalhava, hoje telefona sempre para a pequena rádio do sobrinho, em São João da Barra. Pede música, dá palpite e reclama de algum serviço mal feito na cidade. “Seu sobrinho é locutor, é?”, pergunto. “Não, é radialista!”, responde com a certeza de quem sabe que faz parte da história do rádio.
Lívia França Salles

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

O capelinha do bairro da Saúde

Entrevista Feliz Maria Mauro Caruso



Feliz Maria Mauro Caruso nasceu no Rio de Janeiro, em 1921 e fez a formação de obstetriz ou, na nomenclatura moderna, enfermeira obstetra. Cresceu na casa de seu avô, o patriarca italiano Antônio Mauro. No sobrado na Rua América, na Saúde, viviam ao todo 13 pessoas. Na época, dos seis filhos de Antônio, cinco ainda moravam com ele e dois já eram casados. Nicola e Ernesto Mauro se casaram respectivamente Isabela Copello e Ursulina Astute, O primeiro casal teve apenas uma filha, Mifloresta, nome dado em homenagem a uma atriz de teatro. O segundo casal foi mais produtivo, teve quatro filhos: Antônio, Ema, Lídia e a caçula Feliz Maria.
Nessa época, a Rua América era de terra e o bonde passava em frente ao sobrado, puxado por burros. A diversão da meninada era brincar de roda, carniça, pega ladrão, chicote queimado, tudo pelas ruas da vizinhança.
Não era preciso muito para que o italiano Antônio Mauro juntasse toda a família. Datas comemorativas e almoços de domingos eram garantia de reunião familiar e, conseqüentemente, fartura na cozinha.
Certo dia, a pequena Feliz Maria havia voltado de seu colégio, Benjamim Constant, localizado no Centro do Rio, onde hoje ergue-se a estátua de Zumbi dos Palmares, e brincava na rua à espera de seu pai, Ernesto. Ele trabalhava numa loja de chapéus na Rua Sete de Setembro, também no Centro. Ele raramente se atrasava, mas, nesse dia demorou um pouco mais que o normal. Ao chegar em casa trazia debaixo do braço um grande embrulho. Os que estavam por perto foram conduzidos pela curiosidade para assistir à abertura do estranho pacote que Ernesto manejava com muito cuidado. Desfeito o embrulho revelou-se um capelinha, nome dado ao aparelho de rádio da época devido ao seu formato. Surpresa e comoção geral, os mais velhos achavam aquilo uma extravagância, por sua vez, os mais jovens traziam no brilho dos olhos a aprovação do gesto de Ernesto.
Não demorou muito para que o aparelho de rádio fosse instalado e começasse a trazer alegria e divertimento para casa através dos sons que emitia. O capelinha foi estrategicamente posicionado na sala de estar em cima de uma geladeira que gelava a gelo. Estrategicamente, devido à proximidade do destino final dos dois fios que saiam do aparelho: um ia para uma fonte de eletricidade próxima e outro para as grades da janela, que a partir desse momento passariam a funcionar também como antena. Havia o inconveniente de ter que tirar o aparelho de cima da geladeira toda vez que era preciso renovar o gelo, mas nada que diminuísse a alegria de se ter um capelinha em casa.
Logo o rádio foi encontrando seu lugar na rotina da família Mauro e a regra básica de convivência com o aparelho, estabelecida por Ernesto veio à tona: só ele e sua mulher Ursulina podiam mexer no rádio. Nem as crianças, nem os outros adultos da casa, só o casal tinha acesso livre aos botões do capelinha. Assim sendo, Lídia e Feliz Maria não tinham pudores em acordar sua mãe, Ursulina, logo de manhã cedo, uma vez que só ela podia sintonizar a Hora da ginástica, na Rádio Nacional. O tapete da sala de estar era praticamente uma academia. O programa rendeu boas risadas às meninas quando elas tentavam imaginar as posições propostas por Oswaldo Diniz Magalhães e boas quedas quando elas tentavam realizá-las. Ainda de manhã, Ernesto não abria mão de ouvir as notícias na Rádio Jornal do Brasil, sorte das meninas que os horários dos programas não eram concorrentes. As duas irmãs tinham opiniões diferentes em relação à emissora favorita. Enquanto Lídia gostava da Rádio Tupi, Feliz Maria se interessava pela programação da Rádio Mayrink Veiga, mas depois a Rádio Nacional se tornou unânime na preferência das duas meninas.
Durante toda a tarde o rádio deveria permanecer desligado para economizar luz. A tentação de ligar o aparelho era grande, mas o medo da punição era ainda maior. A casa parecia estranhamente vazia nesses momentos. Quando a noite vinha e Ernesto chegava do trabalho, a casa se enchia novamente, não só pela presença do ilustre do comprador do capelinha, mas pelos sons que dele saíam. Era nesse momento que os vizinhos se aproximavam do sobrado da família Mauro. Eternamente intrigados com o aparelho, para eles não importava o programa que estava no ar, queriam apenas ouvir o rádio funcionando. Eram mágicas aquelas vozes sem boca e misteriosas vindas do além para os lares. Para não interromper a magia do momento: silêncio absoluto. Comentários só eram permitidos no intervalo e ao final dos programas. O rádio conquistou um feito: manter em silêncio por mais de cinco minutos uma família italiana reunida. Sonhos de conhecer os speakers ou cantores e até mesmo de ir a um programa de auditório não passavam, e nem podiam passar, na cabeça de Feliz Maria, uma menina criada com o rigor de uma família italiana tradicional.
Hoje, da poltrona de couro de seu apartamento no quarto andar de um edifício na Barra da Tijuca, Feliz Maria, 86 anos, observa a Avenida das Américas que em nada se assemelha à Rua América. Pouco restou daquele tempo, nem mesmo as pessoas estão mais lá para contestar a edição da sua memória. Ainda assim, as parcas lembranças dos anos 30 são capazes de trazer de volta o sorriso de uma menina que conheceu o rádio em sua época de ouro.
Felipe Caruso

domingo, 9 de setembro de 2007

Bem-vindos ao mundo do rádio

Queridos alunos

Vamos iniciar agora um blog para registrar a memória do rádio no Brasil usando depoimentos de pessoas comuns que falarão sobre o passado do rádio e como o veículo de comunicação influenciou a vida delas. Além de me entregar o depoimento, que valerá nota de G1, esses depoimentos ficarão registrados aqui e, provavelmente, entrarão no novo site da PUC-Rio.
Procurem bem os seus entrevistados, nada de preguiça.
Escolha pessoas que tenham boa memória e boas histórias para contar. Talvez não seja a primeira ou a segunda entrevistada (o) que vocês vão abordar, mas continuem tentando.
Essas memórias são únicas, por isso, gravem. Antes, façam uma introdução, dizendo quem é a pessoa, idade, onde e quando vocês estão fazendo a entrevista.
Nesse mundo de máquinas digitalizadas, tire também uma foto do seu personagem
Boa sorte!
Rose Esquenazi